A cada vez que consigo escrever algo minimamente decente para este espaço me sinto um pouco mais feliz. O tempo tem sido sempre malvado, mas, aos trancos e barrancos, joga-se alguma coisa, desdobra-se uma idéia e, “bam!” surge um post samuraiônico.
O de hoje é sobre soldados americanos, nazistas desgraçados e as peripécias narrativas que o cinema pode, muito bem, emprestar ao RPG (Quentin Tarantino seria um Mestre surpreendente, não acham?). Duvido que seja um post decente. Mas o pensamento serviu para me enganar e, assim, me fazer produzir…
(A inspiração para o artigo é, além do filme Bastardos Inglórios, a ótima resenha da paragônica cinéfila Elisa. Meus ajagunçados agradecimentos a mesma!).
Estamos falando de…
A nova produção cinematográfica do polêmico (e maravilhosamente maluco) diretor conta algumas curiosas, verossímeis e absurdas histórias em meio à Segunda Guerra Mundial (sim, verossímeis e absurdas ao mesmo tempo! Nunca assistiu um filme do cara?).
No clima de espionagem, e combates “atrás das linhas inimigas” Bastardos Inglórios é, na limitada análise que aqui nos interessa, um filme sobre violências, ironias e, especialmente, sobre contação de histórias. Não é novidade no sentido de uma metanarrativa… mas traz, sobretudo nos detalhes mais inglórios, um bom leque de sugestões para histórias divertidas (e bastardas!).
E se pensássemos um pouco sobre essas possibilidades no meio da narrativa rpgística? E se pensássemos, por um instantezinho, nesse tipo de história como um “estilo de jogo”? Você, como jogador, estaria disposto a ver uma tarde de RPG de outro jeito?
Guia para o Jogador Inglório
A proposta aqui, portanto, é pensar o mundo do filme como um conjunto de dicas para jogadores e narradores. Uma espécie de “tom” para campanhas curtas (ou quem sabe, com muita sorte, longas!). Vamos então aos tópicos e marcações que podem fazer de um jogo, um jogo bem próximo do clima do badalado filme…
Capítulo 1: A morte mora no seu bolso: O objetivo de uma sessão inglória, soldado, é uma história furiosa, engraçada e sanguinolenta. Esqueça longas campanhas com os mesmos personagens. Uma história deste tipo é algo que acontece aos atropelos de muitos eventos. Se você é um grande guerreiro ou um espião esperto, pode morrer a qualquer momento. Então, deixe de frescura, faça o que tem de fazer e aguente até onde der. O bonde não vai parar porque você está alimentando os bois em sua nova forma de capim. A história continua e outros personagens virão para morrer na hora certa.

"Sim, filho... Nada como aulas de teatro extras. Dinheiro bem gasto..."
Capítulo 2: Não há mocinhos. Não por muito tempo…: Bom, garoto, em contos como este ninguém é inocente. Você tem raivas, você tem contas a acertar, você não mede esforços. Se alguém atrapalha, você resolve e come o fígado do que quer que seja. Se você tiver dó, se seu coração amolecer, alguém vai te destroçar como uma gelatina azeda ao pôr-do-sol, enquanto ouve Sinatra. Então, cowboy, escute a verdade simples do mundo periogoso: nenhum rosto bonito guarda a ingenuidade por muitos dias e nenhuma bondade será perdoada. Abandone os códigos e as tendências. Você precisa é checar sua munição.
Capítulo 3: Quem liga para a história?: Fidelidade histórica? Não seja ridículo, soldado! Coerência com fatos da escola é coisa de gente imbecil, sem a menor criatividade! Como você sabe que algo aconteceu como aconteceu? Histórias inglórias são recheadas de possibilidades e tratam do passado de seu próprio modo. O que importa neste tipo de cenário é que o você pode fazer antes de morrer. Calcule suas chances, faça uma medição de coragem, verifique se suas cuecas estão limpas depois da reflexão e vá em frente. Alguém precisa morrer e alguém precisa matar. Você pode ou não?
Capítulo 4: Depois da bonança a tempestade manda tudo para o inferno!: Sejamos francos, filho: se você quissesse paz daria um tiro na boca ou procuraria emprego em algum buraco do Arizona. A vida é sangue, risos e gritaria (quase sempre ao mesmo tempo). Há cenas de combate e cenas entre combates. O mundo é perigoso, pessoas morrem e quando tudo estiver muito calmo ou é porque a história acabou ou é porque você não está prestando atenção. Aí, a história vai mesmo acabar, de qualquer jeito… Uma campanha inglória prima pela agitação irreverente, pelas descrições frias e pelo gosto de desgraça na boca. Tire a bunda da poltrona antes do próximo minuto ou não levante nunca mais. Qualquer coisa pode acontecer. Esteja preparado para tudo (inclusive, claro, para morrer bem preparado).
Capítulo 5: O que eu quero é um final visceral!: quem liga para pessoas se encontrando alegres e felizes na praia? Quem liga se a mocinha beija o mocinho no final? Uma história inglória é uma história com explosões, mortes, fogo e vingança! Se você começou, tem que acabar. E acabar do jeito certo! Afogue seus ódios na garganta cheia de sangue de seus inimigos gargarejantes. Nada de finais pela metade. O que conta, sempre, é que, terminadas as batalhas todas, você faça o que tem de fazer. E se isso significa tentar coisas aburdas… que se dane. É ir até lá e fazer algo ou procurar um terapeuta (que provavelmente morrerá na cena seguinte – ossos do ofício).
Nada demais, certo? Histórias inglórias contam coisas de formas muito parecidas com alguns estilos primos. Elas contém o potencial de fazer de uma sessão de jogo, algo simples e despretensioso. Só manere nos gritos e tente não encarnar demais a ficção. Os vinzinhos já não gostam muito de RPG e tratamentos psiquiátricos são caros, afinal de contas. Hã? Alguém me contou, oras!
Agora me diga o que acha.
Saudações narrativas.







